Cerâmica Ding: brancura da neve e brilho do jade

Produzida há 1.400 anos, ela era a predileta da família real da dinastia Song do Norte

Este travesseiro de porcelana cor marfim tem a forma de uma criança deitada de barriga para baixo, com os braços dobrados sob o queixo e os pés levemente erguidos. Acredita-se ter sido queimada num molde, antes de receber acabamento final esculpido.

Datada da dinastia Tang (618-907) e com seu auge nos períodos da dinastia Song do Norte (960-1127) e Jin (1115-1234), a cerâmica Ding é famosa pela finura de seu corpo de argila, pelo vidrado em branco puro e pela textura firme. Costuma ser impressa com motivos decorativos produzidos por diversas técnicas.

As peças Ding estão entre os cinco principais tipos de porcelana da dinastia Song, e são as únicas de cor branca. O nome vem do fato de sua produção se situar em Dingzhou (hoje Jianzi, Condado de Quyang, província de Hebei). Os fornos locais produziram continuamente por mais de 500 anos, desde a dinastia Tang à dinastia Yuan (1279-1368). Seu auge se deu na dinastia Song do Norte, quando a cerâmica Ding foi escolhida para uso pela família real, e com isso passou a ser vendida com muita facilidade.

O que diferenciava a cerâmica Ding das outras porcelanas era o seu corpo fino como papel, a cor jade branco, e o som de sino ao ser percutida. Seu vidrado é suave, polido e branco, com um toque de tons quentes, lembrando a pele clara das moças jovens ou o jade Hotan (um jade branco de Xinjiang, cuja fina textura valeu-lhe o apelido de “gordura de carneiro”).

A qualidade sublime do esmalte da cerâmica Ding é atribuída à sua técnica de queima e às matérias-primas. A cerâmica Ding vai ao forno a mais de 1.300 °C, em comparação com os 1.250°C da maioria das demais cerâmicas. Esse calor resulta numa textura fina e firme, e o dióxido de titânio na mistura da matéria-prima dá ao esmalte uma similaridade com o marfim, de grande apelo à estética chinesa.

O vaso apresenta um gargalo estreito e curto, ombros arredondados e corpo afilado, o que é típico dos vasos prunus Ding da dinastia Song. O esmalte branco é claro e suave, com um toque amarelado. Pétalas de crisântemos estão esculpidas nos ombros, e mais embaixo há lótus entrelaçados. As linhas gravadas são nítidas, fluentes, de diferentes profundidades, mostrando o avanço das técnicas de gravação dos fabricantes de cerâmica Ding.

A queima é uma etapa crítica na produção de porcelana chinesa. Para monitorar e controlar a temperatura, os produtores de cerâmica Ding colocam pedaços de argila em diferentes pontos da câmara do forno, e ficam constantemente checando suas mudanças no processo de queima por meio de uma abertura na porta do forno. Os pratos e tigelas crus são empilhados invertidos no forno, separados por apoios de argila em forma de anel. Isso permite introduzir mais peças em cada queima, poupando combustível e reduzindo o índice de deformação, o que diminui de modo significativo os custos e aumenta a produtividade. O aspecto negativo é que o esmalte precisa ser antes raspado da borda da peça para não grudar nela.

A cerâmica Ding também se distingue por seus padrões esculpidos, gravados e feitos com incisões ou pressionados, o que marca um ponto de inflexão na história da porcelana chinesa. Uma das técnicas para criar padrões consiste em traçar linhas com uma lanceta de ponta redonda ou um bambu sobre o corpo de argila de cada peça. Não havia regras fixas a seguir nesse método de produção, e o tamanho e forma da ferramenta de gravação, e o estilo pessoal do ceramista, podiam produzir vários estilos de porcelana muito elaborados, e bastante diversificados.

Há ainda um padrão estampado também representativo da cerâmica Ding. Ele é obtido pressionando blocos escavados sobre a superfície da argila de uma peça, antes que esteja totalmente seca. Essa técnica começou na dinastia Song do Norte do período médio, e amadureceu no último período da dinastia. Tem influência dos desenhos em peças de prata e ouro, com grande sofisticação artística, e foi adotado por ceramistas tanto do norte quanto do sul da China.

Prato fino e uniforme, coberto com esmalte branco-amarelado. “Marcas de lágrimas”, uma característica da cerâmica Ding, podem ser vistas em sua superfície externa e um dragão rodeado de nuvens está nitidamente impresso na parte interna. A borda é protegida por metal. Essa peça é tida como uma das melhores de cerâmica Ding já feitas.

A grande popularidade da cerâmica Ding levou fornos de outras regiões a copiarem suas formas, padrões e métodos de produção, e aos poucos algumas regiões passaram a produzir porcelana de igual qualidade. A extensão da produção de cerâmica Ding teve um impacto muito grande no setor de porcelana do país.

A cerâmica Ding declinou a partir da dinastia Yuan, o que alguns atribuem ao crescimento da cerâmica azul e branca feita em Jingdezhen. No entanto, ela ressurgiu na década de 1970, quando os ceramistas chineses desenvolveram mais de 200 linhas de produtos básicos em técnicas antigas. Hoje, a cerâmica Ding é exportada para dezenas de países e regiões ao redor do mundo, incluindo Estados Unidos, Japão e Canadá.

Comentários

Todos os campos abaixo são obrigatórios. Seu e-mail não será publicado.