Caminho aberto para o intercâmbio cultural

Festival de Cinema se afirma como uma ponte entre os países do Brics

Apresentação da equipe de produção de "Where Has the Time Gone?" na cerimônia de abertura do Festival de Cinema do Brics 2017

Apresentação da equipe de produção de Where Has the Time Gone? na cerimônia de abertura do Festival de Cinema do Brics 2017 – uma coprodução de cinco países integrantes do grupo

(Por Niu Mengdi, repórter do Guangming Daily)

O Festival de Cinema do Brics de 2017, realizado em Chengdu – parte da série de eventos que integrou a Cúpula do Brics do ano em Xiamen –, teve início em 23 de junho e se estendeu por cinco dias, com a exibição de 33 filmes dos países do Brics. Desses filmes, dez deles, entre os quais Soulmate, The Second Mother e Lady of the Lake, competiram nas cinco categorias, incluindo a de melhor filme, prêmio que coube ao brasileiro Nise, o Coração da Loucura. Nas projeções especiais de abertura e de encerramento, foram exibidos, respectivamente, Where Has the Time Gone?, primeiro filme coproduzido pelos países do Brics sob liderança da China, e o sul-africano Mrs. Right Guy.

Na edição desse ano do festival, os cinco países do Brics dedicaram-se a promover por meio do cinema o intercâmbio cultural, o entendimento nacional e a cooperação econômica. O chefe da delegação brasileira e embaixador do Brasil na China, Marcos Caramuru de Paiva, declarou: “Minha expectativa é que os cinco países do Brics usem o Festival de Cinema como plataforma para aprofundar a compreensão mútua, a comunicação e o intercâmbio”.
O Festival de Cinema do Brics foi criado em 2016, e a cada ano escolhe-se um dos países do Brics como sede. A primeira edição foi realizada na Índia, a segunda na China, e a próxima será na África do Sul.

O Festival de Cinema do Brics não só possibilita o intercâmbio cultural entre a China e o resto do mundo como rompe barreiras culturais

Produção conjunta – O filme da abertura do festival, Where Has the Time Gone?, é o primeiro coproduzido pelos cinco países do Brics e sua realização reuniu diretores da China, Rússia, Índia, Brasil e África do Sul, cada um explorando em um curta-metragem o mesmo tema: “Onde o tempo acabou?”. Para o produtor executivo e diretor do curta chinês, Jia Zhangke, “o tema do ‘tempo’ diz respeito ao desenvolvimento nos cinco países do Brics: todos vivem o processo do rápido crescimento econômico, todos enfrentam imensas transformações sociais. Espero que pela exploração desse tema possamos acompanhar as mudanças nas experiências individuais e na vida comunitária dessas sociedades em rápido desenvolvimento”.

O episódio chinês Meeting the Spring, dirigido por Jia Zhangke, é sobre a política do segundo filho e conta uma história emotiva, bem atual na China de hoje. Já o episódio brasileiro, dirigido por Walter Salles, aborda as consequências de um evento real, o rompimento de uma barragem de rejeitos da mineração de ferro, ocorrido em 2015 em Mariana, Minas Gerais, e mostra o clamor pela vida e as expectativas futuras após esse desastre ambiental. O diretor russo Aleksei Fedorchenko deu ao seu curta o título Breath, e retrata nele a complexa redenção emocional de um casal que vive recluso nas montanhas. O diretor indiano Madhur

Bhandarkar é responsável pelo episódio Mumbai Mist, que descreve a comovente amizade entre um homem idoso e um órfão de dez anos de idade. Rebirth, do prestigioso diretor sul-africano Jahmil X.T. Qubeka, narra a história de uma trabalhadora num mundo futuro virtual, que não aceita a ideia de que o destino de todos os seres humanos é predeterminado e arrisca a própria vida em sua luta para mudar seu destino.

“Esse é um trabalho extremamente desafiador e interessante.” Jia Zhangke foi muito franco ao afirmar que não foi nada fácil encontrar um tema que despertasse o interesse dos diretores dos cinco países, que têm linguagens e culturas imensamente diferentes. “A emoção humana é universal, não há fronteiras.” Where Has the Time Gone? despertou reações intensas no público. A diretora sul-africana Sarah Blecher declarou: “Esse filme é maravilhosamente diverso, é mais que um filme apenas, permite que o público experimente diferentes culturas”.
A China espera dar prosseguimento a esse modelo de cooperação, e planeja lançar todos os anos um filme codirigido pelos países do Brics, até 2021.

Estão previstas cinco novas coproduções para os próximos anos, além de bolsas e intercâmbio técnico na Academia de Cinema de Pequim

Plataforma para cooperação – O Festival de Cinema do Brics está envolvido na construção de uma plataforma para a amizade e para a cooperação pragmática e eficiente entre realizadores de cinema e setores da indústria do cinema dos países do Brics. Para o vice-presidente da Academia Chinesa de Arte, Jia Leilei, “é uma verdadeira maravilha ver os cinco países do Brics revezando-se para sediar esse festival de cinema, que não só possibilita o intercâmbio cultural entre a China e o resto do mundo, como rompe barreiras culturais e dilui a sensação de falta de familiaridade entre os países do Brics. Com isso põe na vitrine uma abundante diversidade cultural, à vista de cada um dos povos desses países”.

O presidente do Bona Film Group, Yu Dong, descreveu essa experiência no Festival de Cinema de Cannes: “Quando os produtores brasileiros assistiram ao filme chinês Shock Wave, acreditaram que não seria difícil de fazer em termos de enredo e desenvolvimento dos personagens, e então decidiram pegar a história e transformá-la em uma narrativa brasileira, contratando atores brasileiros e uma produção brasileira para trabalharem nela”.
A coprodução cinematográfica é a chave para promover intercâmbio cultural e desenvolver a indústria do cinema nos países do Brics. Na opinião do produtor Han Sanping, “os filmes chineses devem cooperar na realização não só de filmes com Hollywood, mas também com os países do Brics, para incentivar a diversidade nos filmes chineses”.

Aproximando corações – O filme indiano Dangal ficou imensamente popular na China, e logo virou assunto de intensos debates entre os convidados dos diversos países na edição deste ano do Fórum sobre o Caminho da Cooperação em Cinema do Brics. O produtor chinês Lu Chuan declarou: “Esse filme gerou uma bilheteria de 1,2 bilhão de yuans na China. Seu sucesso deveu-se totalmente à sua carga de paixão e ao poder de sua história”. Um funcionário do ministério da Informação e das Comunicações da Índia declarou: “O enredo desse filme é muito interessante. É muito mais do que um filme sobre esportes; tem também um lado muito comovente e emocional”.

No fórum, os produtores dos países do Brics disseram-se dispostos a aproveitar esse mecanismo de cooperação entre seus países para fortalecer e aprofundar o intercâmbio e a cooperação artística, fazendo o cinema, a linguagem mais internacionalizada, universal e popular da terra, servir de vínculo emocional entre os povos desses países.

Diretor executivo da Academia Nacional Russa de Artes e Ciências Cinematográficas e chefe da delegação russa, Boris Mashtaler afirmou que “os seis filmes russos exibidos este ano mostram o espírito e a vitalidade da Rússia, e por meio da plataforma desse festival de cinema promoveram o intercâmbio de filmes entre os países do Brics ”. Na sua opinião, “o cinema é uma linguagem que pode ser compreendida por todos, sem necessidade de tradução. Durante os eventos do Dia Nacional do Cinema, podemos exibir não apenas filmes dos países do Brics a públicos de outros países, como também fazer com que todos os realizadores de cinema aprendam uns com os outros e aproveitem reciprocamente sua força e inspiração”.

De que modo é possível aproximar os corações das pessoas por meio da coprodução de um filme? O produtor do filme indiano Kasaav: Turtle, Mohan Agashe, sugere: “Embora as atuais circunstâncias de cada um dos cinco países sejam imensamente diferentes, há vários problemas comuns enfrentados por todos nós e o cinema é um meio maravilhoso de resolver esses problemas sociais comuns. Proponho que o próximo filme coproduzido seja mudo, pois desse modo o próprio filme irá se tornar uma linguagem sem fronteiras”.

Além da decisão de criar a cada ano um novo filme do Brics coproduzido, durante os próximos cinco anos, no Festival foram anunciados também outros projetos cooperativos similares, como um intercâmbio de talentos cinematográficos e um programa de treinamento na Academia de Cinema de Pequim. O projeto da Academia de Cinema de Pequim planeja oferecer bolsas integrais a 40 estudantes dos países do Brics nos próximos cinco anos e também iniciar uma série de atividades, como oficinas de alto nível, e oferecer recursos de cooperação em pesquisa a estudiosos visitantes. Ao usar a linguagem do cinema para encurtar a distância entre os povos do Brics, os cinco países que o compõem irão obter, durante essa segunda década de cooperação, realizações ainda maiores nas áreas do cinema, da cooperação de negócios e de intercâmbio.

Elenco do brasileiro Nise, o Coração da Loucura, que ganhou o prêmio de melhor filme

Elenco do brasileiro de Nise, o Coração da Loucura, que ganhou o prêmio de melhor filme


Os vencedores do Segundo Festival
de Cinema do BRICS (2017)

Melhor filme
Nise, The Heart of Madness (Brasil)

Melhor diretor
Kim Druzhinin e Andrew Shalopa, The 28 Panfilov Heroes (Rússia)

Melhor ator em papel principal
Alok Rajwade, Kaasav: Turtle (Índia)

Melhor atriz em papel principal
Zhou Dongyu, Soulmate (China)

Prêmio por contribuição artística
Where Has the Time Gone? (Os cinco países do BRICS)

Prêmio especial do júri
A que horas ela volta? (Brasil), Ayanda and the Mechanic (África do Sul)

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