Aprender do jeito fácil

Plataformas pagas de aprendizagem online estão alterando nossa maneira de aprender

Em 15 de junho de 2018, o professor Xue Zhaofeng, economista que se tornou celebridade na internet, comparece à primeira noite de autógrafos do seu livro Lições de Economia em Mercados de Alimentos

À medida que a era da eletrônica se faz presente em todas as esferas de nossas vidas, não surpreende que as publicações em mídia impressa tenham no geral sofrido uma queda nas vendas nos últimos anos. As pessoas assinam menos jornais e compram menos livros, preferindo agora adquirir e-books e surfar na internet – e aprender online tornou-se uma opção mais prática e eficiente. Essas mudanças colocam grandes desafios para aqueles que compartilham informação online; ao mesmo tempo, os consumidores tornam-se cada vez mais criteriosos quando pagam por conhecimento. No presente momento, algumas editoras e plataformas de informação conhecidas por suas publicações de alta qualidade também aderiram à tendência.

Em junho de 2018, o conhecido pesquisador de economia Xue Zhaofeng publicou seu novo livro Palestras sobre Economia de Xue Zhaofeng no Mercado Sanyuanli, um mercado popular, que se tornou viral. Citando exemplos extraídos de cenários reais, Xue estabeleceu conexões entre a economia e a vida cotidiana das pessoas. O que é digno de nota é que o novo livro de Xue foi inicialmente o esboço do que ele usou na plataforma de conhecimento paga “iGet”. Mais de 27 mil usuários pagaram cada um 199 yuans (cerca de US$ 29), para participar de seu curso de economia online. Esse caso deu impulso à crescente tendência de pagar por conhecimento, firmando-a junto ao público.

Pagar por conhecimento

Segundo a definição de economia compartilhada do State Information Center (SIC), pagar por conhecimento pode ser encarado como um processo de transformar o conhecimento em produtos ou serviços comerciais. Mais especificamente, aqueles que contam com um excedente cognitivo podem partilhar seu conhecimento com outros por meio de plataformas da internet, e conseguir uma renda adicional. Essas plataformas também lucram com isso.

O ano de 2016 marcou o início do pagamento por conhecimento na China. Uma enquete realizada em conjunto pelas plataformas online Guokr e Netease mostra que 70% dos usuários têm pago por aprendizagem online, número que em 2015 era de apenas 26%.

Em maio de 2016, Zhihu, um site chinês de perguntas e respostas, lançou o Zhihu Live (pagamento compartilhado) e seções de Perguntas e Respostas. Em três dias, essas novas plataformas atraíram mais de 1 milhão de usuários. Em junho, Luo Zhenyu, fundador do LUOgic Talk Show, lançou no site iGet o seu “Indicações Comerciais de Li Xang”, e em dois dias mais de quatro milhões de usuários se inscreveram; em agosto, fizeram sua aparição online o “função aprovação & dicas”, da Zhihu, “bola de neve de Perguntas & Respostas”, e o site “Zhiliao Perguntas & Respostas” da Lenovo; em setembro, a Huxiu começou a oferecer relatórios em profundidade para membros VIP pagos. Outras plataformas pagas de conhecimento, como a Ximalaya FM, Douban, Qingting FM, Xiaomi Circle (agora Planeta Conhecimento), Qianliao e Lizhi Microclass, têm também oferecido serviços pagos de conhecimento.

As pessoas com maior bagagem de conhecimento e experiência em áreas específicas são as que têm maior probabilidade de se beneficiar do pagamento por conhecimento. Altos executivos de grandes companhias multinacionais, como Google, membros da elite financeira com histórico universitário e psicólogos bem conhecidos, podem todos se beneficiar dessas plataformas online. Mas as oportunidades também favorecem os comuns: um profissional especialista em preparar cafés, uma garota que já viajou o mundo inteiro, um fisicultor ou um estudante que foi muito bem em algum exame para ingresso na pós-graduação, todos eles criaram aulas ao vivo depois de se candidatarem e serem avaliados por esses sites. Cem minutos de áudio compartilhado custam 19,9 yuans (US$ 2,9) e milhares de usuários podem pagar e assistir ao curso, o que traz àqueles que têm conhecimento específico uma renda considerável.

No Relatório sobre Desenvolvimento da Economia Compartilhada realizado na China em 2017, apresentado pelo SIC, o faturamento no mercado de conhecimento da China foi de 61 bilhões de yuans (cerca de US$ 9 bilhões), o que indica um crescimento de 205% em relação ao ano anterior; o número de usuários que pagam por conhecimento chegou a 300 milhões, o equivalente a metade de todos os usuários chineses de internet.

O levantamento mostra que os homens são a maioria dos usuários, chegando a quase 60%; a faixa entre 25-35 anos responde por 59,3%, o que corresponde também à maioria dos usuários da internet. Dos usuários que pagam, 63% têm nível superior, e 53,9% têm renda entre 3 mil e 8 mil yuans (ou US$ 441 a US$ 1.176); na maioria são funcionários do escalão inicial da administração.

Livraria com temática de frutas no mercado de alimentos Sanyuanli, em Pequim. A livraria vende apernas um livro: as Palestras de Economia de Xue Zhaifeng, que é a inspiração para a exposição “Lições de Economia em Mercados de Alimentos”

Entre os usuários da plataforma, 63% vês de cidades relativamente desenvolvidas, e entre os subscritores, 47% vêm de cidades de primeiro nível, como Pequim e Xangai, e 26% de cidades de um nível abaixo, como Dalian e Xiamen.

Tradicionalmente, aqueles que têm mais instrução e privilégios são os que obtiveram um grau maior de conhecimento, mas com o advento da internet e do marketing online isso tem mudado, e a discrepância de conhecimento se reduziu. Luo Zhenyu disse que no passado, quando sua equipe vendia livros pela internet, ele ficava muito orgulhoso toda vez que via um pedido de uma pessoa comum, residente num lugar comum, como a rural Guizhou, por exemplo, pedindo um exemplar de Economia Geral.

“Se não fosse por nós, o rapaz jamais teria alguma noção do que é economia. Eu parti das noções de economia, mostrando a ele o tipo de fantasia que despertou seu interesse, e que o fez querer saber mais a respeito do assunto. Talvez ele nunca tenha lido o livro inteiro, talvez as palavras do livro fossem incompreensíveis para ele, mas desse modo talvez sua vida tenha se tornado melhor. Essa sensação de realização é o que nos estimula a continuar em frente”, disse Luo.

É nítido que a capacidade de marketing da internet e sua irresistível influência sobre as pessoas de todas as esferas de vida oferecem inúmeras possibilidades para compartilhar conhecimento.

Em junho de 2016, a Ximalaya FM, o popular aplicativo de rádio, abriu um canal pago. Em dezembro de 2017, a Ximalaya FM realizou um “carnaval de conhecimento 123”, que atraiu 850 celebridades da internet e mais de 2 mil participantes, todos apresentando aulas pagas de áudio. Esse evento foi como uma Black Friday, uma fantástica estratégia de marketing que deu grande impulso ao pagamento por conhecimento. Só nesse dia, o faturamento chegou a mais de 50 milhões de yuans, cerca de US$ 7,3 milhões.

Apesar do marketing bem-sucedido, não é fácil levar as pessoas a pagar quando há recursos gratuitos dispersos pela internet. Considerando o ambiente prático, gratuito e aberto da internet, vale a pena pensar por que as pessoas se dispõem a pagar por algo que não seja entretenimento.

Maior discernimento

Durante a transformação social, com o rápido desenvolvimento econômico e uma torrente de novas informações surge a tendência de fazer as pessoas ansiarem por sabem mais a respeito do mundo ao redor delas. Isso cria um caminho direto para pagar por conhecimento online. Além disso, nem toda a informação disponível de forma gratuita na internet é de interesse, o que torna a seleção da informação muito importante. As pessoas preferem pagar para terem exatamente o que querem. Levando em conta as mensalidades caras de ensino, os custos de transporte de as restrições de tempo, ganhar conhecimento via internet é muito mais eficiente. Em termos de custo, os cursos compartilhados online são o equivalente a alguns cafezinhos, e o modelo de aprendizagem é bem mais interessante do que os métodos de ensino tradicionais.

Com a internet como plataforma, as pessoas podem começar a parar à hora que quiserem, o que dá a possibilidade de aproveitar os fragmentos de seu tempo.

Pagar por conhecimento é especialmente atraente para aqueles que entram agora no mercado de trabalho. As escolas tradicionais raramente ensinam como lidar com a pressão dual de trabalho e vida pessoal, e as pessoas precisam desesperadamente de conselhos de profissionais. Por isso, cursos práticos como os de negócios e investimento, psicologia, carreira, criar filhos e estilo de vida são tão populares. Esses cursos compartilhados estão estreitamente relacionados com a economia e a vida social, e as pessoas acreditam que tais cursos, com preços razoáveis, podem melhorar sua base de conhecimentos e seu perfil competitivo.

O nutricionista Gu Zhongyi ocupa-se em montar transmissões ao vivo em sua casa. Ele atrai milhões de seguidores na Weibo, e responde às suas perguntas em sua plataforma paga de Perguntas e Respostas

Outro fator para o sucesso de cursos online está no crescente respeito que as pessoas têm por direitos autorais, Música e vídeos pirata praticamente desapareceram com as regulamentações mais rigorosas dos governos, e as pessoas estão se habituando à ideia de terem que pagar por produtos autorizados. Além disso, o pagamento pela internet por meio de Wechat e Alipay aumenta muito a praticidade do pagamento de produtos online. Yiguan, a famosa instituição de análise de dados, divulgou um Relatório Branco sobre o Setor de Conhecimento Pago na China, em dezembro de 2017, que mostrou que a opinião das pessoas em relação a “conteúdos” e “conhecimento” está mudando. Agora as pessoas preferem pagar por produtos ou serviços relativamente melhores. Usuários de informação também preferem buscar ativamente o que querem em vez de simplesmente surfar pela internet aleatoriamente.

Tempo fragmentado

Apesar de sua popularização, o conhecimento pago tem ainda seus desafios. Muitos usuários estão gastando grandes quantias de dinheiro anualmente sem obter muitos benefícios. Entre as queixas sobre esse método de aprendizagem está a de ser fragmentado, utilitário e excessivamente baseado em entretenimento. Tais queixas revelam que esses métodos devem ainda encontrar uma maneira de garantir a qualidade dos conteúdos.

Os modos mais característicos dos sistemas de conhecimento pago são as palestras e os vídeos ou programas de áudio pagos sobre certos temas, o pagamento compartilhado em experiências como as de Perguntas e Respostas, e leituras resumidas de clássicos.

Para cursos pagos, a competência e o empenho daquele que compartilha ou ensina determinam a qualidade, enquanto as leituras resumidas refletem a ansiedade por sucesso rápido e ganhos imediatos por parte de quem aprende. Ao comprar conhecimento online, as pessoas podem se concentrar num resumo de 5 mil palavras em vez de encararem o livro original inteiro com 200 mil palavras, o que permite terminar vários livros em um curto prazo. Embora esse método seja prático e eficiente, uma grande porcentagem dessas leituras resumidas é fragmentária e falha. Surge então um paradoxo: as pessoas pagam online a fim de reduzir sua ansiedade a respeito de suas carências de certos conhecimentos, e o que elas obtêm em troca são apenas algumas metodologias e ideias que as deixam ainda mais confusas.

“A ansiedade geralmente é infundada. As pessoas não têm que ficar pensando em quanto conhecimento precisam ter; o que realmente importa é definir que tipo de vida elas querem ter, e como poderão viver essa vida”, disse o acadêmico Yang Zhao. Seus pontos de vista são compartilhados por muitas pessoas.

Yang acredita que a leitura deve ser agradável, e que as pessoas não devem ter em mente apenas a praticidade; ao contrário, devem perguntar “por que devo ler isso?” ou “em que sentido isso pode me beneficiar?” Ler é um processo que deve permitir que cada um desenvolva o próprio estilo de vida.

Na opinião de Yang, as pessoas “deveriam escolher o caminho menos trilhado” e pensar em como “transformar informação em conhecimento”. Só quando as pessoas passam mais tempo pensando em como chegar à real compreensão é que podem desenvolver os próprios sistemas de conhecimento.

Para Yang, as plataformas de conhecimento pago são essencialmente mídia, e trazem fragmentos de informação, que exercem influências diferentes de acordo com cada pessoa. “As plataformas de conhecimento pago ampliam o horizonte. Por exemplo, é fácil a pessoa ter acesso à música clássica ocidental por meio dessas plataformas. Elas abrem para novas facetas da vida. Muitas pessoas nunca iriam saber do que se trata uma sinfonia ocidental, a não ser por meio de uma dessas plataformas.”

O conhecido acadêmico Liang Wendao acredita que essas plataformas “estão traduzindo os ininteligíveis arcaicos para o mandarim”. Elas agem como um meio de interpretar o conhecimento difícil e abstrato, abrindo caminho para que os usuários aprendam mais.

Talvez a sociedade esteja passando por um estágio de desenvolvimento em termos de pagar por conhecimento. Depois que as pessoas atenderem às suas necessidades práticas, como passar num exame ou arrumar um emprego, irão voltar-se para o conhecimento procurando enriquecimento espiritual e prazer. Neste caso, a internet sem dúvida irá prover mais possibilidades no sentido de reduzir as diferenças em conhecimento, ampliar horizontes e enriquecer a vida espiritual das pessoas.

No presente momento, tanto as plataformas quanto os usuários refletem-se e se ajustam, de modo que os sistemas de conhecimento pago possam prover serviços mais adequados. A diversificação e a melhor qualidade dos conteúdos irão trazer mais insights para a vida das pessoas.

Comentários

Todos os campos abaixo são obrigatórios. Seu e-mail não será publicado.