A Rota dos investimentos segue para o sul

A China pretende investir US$ 250 bilhões na infraestrutura do continente para a próxima década

Seis anos após o presidente chinês Xi Jinping ter proposto a Iniciativa Cinturão e Rota (BRI, na sigla em inglês) ela continua sendo o plano de investimento mais ambicioso do mundo. As oportunidades que a BRI oferece para promover a prosperidade por meio do desenvolvimento de vínculos comerciais e criação de empregos são algo sem paralelo. No entanto, para que a BRI alcance suas aspirações mais ousadas, os países que dela participam na América Latina, entre eles o Uruguai, devem também trabalhar internamente e com a China para adotar políticas complementares, que promovam um crescimento econômico de longo prazo, responsável e sustentável.

A BRI é uma estrutura econômica global de um trilhão de dólares que liga a China e mais de cem países parceiros, que respondem por um terço do PIB global e por cerca de dois terços da população mundial. A BRI tem cinco objetivos amplos: coordenar políticas, propiciar a conectividade, promover comércio sem restrições, integrar mercados financeiros e construir redes de relações multilaterais e bilaterais por meio de conexões pessoa a pessoa. Diferentemente dos modelos tradicionais de desenvolvimento que utilizam condicionantes e enfatizam reformas institucionais, a BRI é uma abordagem movida por investimento e com foco na infraestrutura, no comércio e na criação de empregos. Desde o anúncio oficial da BRI, a China investiu mais de anúncio oficial da BRI, A China investiu mais de US$ 80 bilhões na iniciativa. O Banco Mundial observou que o massivo investimento sob a BRI pode “transformar o ambiente econômico no qual as economias operam”.

As primeiras áreas de prioridade geográfica da BRI seguiram a histórica Rota da Seda terrestre, da China à Europa, e uma nova Rota Marítima da Seda, mas, a partir de 2018, ela foi expandida para incluir o Ártico e a América Latina. A China promete investir US$ 250 bilhões na América Latina na próxima década. Isso aumenta potencialmente o acesso a capital para os indispensáveis projetos de infraestrutura, numa época em que há um recuo do interesse dos Estados Unidos, historicamente o país que mais interveio na região. Os projetos propostos pela BRI incluem um novo porto no Peru e um cabo submarino de fibra óptica entre a China e o Chile, que permitirá maior conectividade e aumentará a prosperidade nos dois países.

Líderes de países da América Latina acolhem a BRI como uma comunidade das fortes relações prévias. Desde 2005, a China investiu cerca de US$ 150 bilhões em financiamento estado-estado na região. Isso inclui o dinheiro investido em projetos de infraestrutura, como os de estradas na Costa Rica, ferrovias na Argentina e um porto em Trinidad e Tobago. Em 2015, o embaixador da Bolívia na China declarou que a BRI é “extremamente importante para o desenvolvimento futuro da Bolívia”. Em subsequentes declarações públicas, Peru, Equador, Argentina, Panamá, Trinidad e Tobago, Antigua e Barbuda, e Uruguai, também afirmaram esta posição. Os países da América Latina esperam se beneficiar com este maior investimento em infraestrutura.

No ano passado, 30º aniversário das relações China-Uruguai, este último tornou-se o primeiro país do Mercosul a assinar um acordo sob a BRI, dando prosseguimento a uma história de relações próximas entre os dois países. A China é o parceiro comercial mais importante do Uruguai, já que compra 27% das suas exportações, principalmente de produtos agrícolas como madeira, carne bovina, além de carneiro e lã. Os portos uruguaios servem como pontos estratégicos de pesca e despacho para as companhias chinesas. Montevidéu tem o melhor porto do sul do oceano Atlântico, e graças a uma lei de “porto livre” os bens que entram aqui podem ser reencaminhados a outros destinos, como Paraguai, Bolívia, Argentina e Brasil. Metade do frete recebido aqui é então liberado dessa maneira. Nueva Palmira, outro porto uruguaio na foz dos rios Paraná e Uruguai, tornou-se o porto preferido para exportações e importações do Paraguai e da Bolívia. Nas ruas de Montevidéu, os automóveis chineses Lifan 620 são uma preferência entre os motoristas de táxi. Estudantes participam de intercâmbios culturais nos dois países, e no último ano foi inaugurado um Instituto Confúcio no Uruguai. A importância deste relacionamento está refletida nas visitas de Estado de alto nível de autoridades de ambos os países, entre outras a minha visita como presidente do Uruguai em 1993. Atualmente, os dois países têm uma visão compartilhada de colaboração em várias questões prioritárias: mudança climática, governança econômica, Agenda para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas para 2030, manutenção da paz e cooperação Sul-Sul. A BRI irá ajudar a desenvolver ainda mais os laços entre os dois países.

Existem razões mutuamente benéficas para que o Uruguai participe da BRI. Fernando Lugris, embaixador do Uruguai na China, destacou duas destas razões. Primeiro, o avançado setor agrícola do Uruguai iria se beneficiar do maior acesso ao mercado chinês para vender os seus produtos. Em segundo lugar, como o Uruguai é uma “porta de entrada para a América Latina” e um polo logístico para negócios, as empresas chinesas podem alavancar a posição do seu país para entrar no grande mercado sul-americano. No entanto, ambos os países têm reconhecido a necessidade de expandir a cooperação na agricultura, na energia limpa, nas comunicações, mineração, manufatura e finanças para conseguir os mais elevados retornos sobre o investimento. Na realidade, o Uruguai está em posição única para maximizar os benefícios dos investimentos da BRI. O Uruguai há muito tempo alcança altas posições regionalmente por seu PIB per capita. O país é o segundo destino mais visitado do mundo por navios de carga refrigerados, e tem considerável expertise neste campo, já que Montevidéu é um núcleo pesqueiro global. No terreno da inovação, o Uruguai é um dos líderes mundiais em tecnologia de informação e comunicações, assim como em medicina animal e tecnologia genética. Globalmente, é um dos sete países mais digitalizados. Tem também um dos mais altos índices internacionais em valores democráticos nas Américas. Esses fatores tornam o Uruguai um país atraente e estável para investidores.

Apesar das muitas oportunidades criadas pela BRI, há várias outras considerações que o Uruguai e outros países da América Latina devem ter em mente em seu caminho de desenvolvimento.

Em primeiro lugar, alguns projetos da BRI empacados são um lembrete de que, como qualquer outro investimento, os sucessos socioeconômicos de projetos individuais da BRI não são garantidos. Os países devem se dispor a fazer os necessários investimentos para complementar o investimento chinês. No caso do Uruguai, isso pode significar introduzir programas de modernização que estimulem a competitividade comercial, como a redução de barreiras de regulamentação que sejam excessivamente complexas ou da taxação de produtos de empresas chinesas de pequeno e médio porte.

Em segundo lugar, relatos de pesados fardos de dívidas enfrentados por países em razão de terem feito empréstimos ambiciosos demais por meio da BRI são um lembrete da necessidade de um conservadorismo fiscal e de uma diversificação econômica. A América Latina, com seu longo histórico de interferência dos Estados Unidos sob a Doutrina Monroe, deve ser cautelosa em relação a não fazer empréstimos excessivos para não ficar em uma condição de forte dependência financeira. Em vez disso, os países latino-americanos, entre eles o Uruguai, devem encontrar financiadores alternativos ou investimento direto estrangeiro para complementar o investimento estatal em projetos de infraestrutura.

Em terceiro lugar, devido à vulnerabilidade da América Latina à mudança climática, os países devem ter cuidado com as consequências ambientais que os projetos da BRI possam gerar. Historicamente, os setores extrativistas e de commodities têm sido uma pedra de oque nas relações comerciais entre a China e a América Latina. No entanto, com todas as partes envolvidas cada vez mais comprometidas em lidar com a mudança climática, como visto na ratificação pelo Uruguai e pela China do Acordo de Paris, haverá terreno comum para que ambos os países explorem opções de investimento sustentável para o meio ambiente, especialmente no vasto setor agrícola do Uruguai.

Embora nenhum desses três aspectos seja significativamente desafiador, estas lições ajudam a assegurar que os países latino-americanos alcancem o maior sucesso sob a BRI. À medida que a China ganha crescente importância no cenário internacional, é imperativo que os demais países desenvolvam uma sólida compreensão disso e identifiquem oportunidades de colaboração.

Desde o início, o InterAction Council, um grupo de ex-líderes mundiais, do qual sou membro, tem dado prioridade à revitalização econômica. Isto inclui identificar políticas capazes de aumentar a assistência a países que possam se beneficiar de maior investimento. Acreditamos que não há contradição entre crescimento e recursos financeiros. A China, anfitriã da mais recente sessão plenária do Conselho, compartilha essa visão por meio da BRI. Damos muito valor à opinião do presidente Xi sobre o livre-comércio como a melhor maneira de construir prosperidade para todos os países e a melhor logística como a principal via para tornar isto real. Por meio de colaborações entre a China e os países parceiros na BRI, será possível concretizar a visão do presidente Xi, de construir uma comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade. Por meio da BRI, a América Latina tem uma oportunidade de estabelecer laços mais profundos com esta comunidade.

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