A nova globalização dos Brics

Em 2018, o Brasil hospedará o encontro de cúpula dos Brics. Como é de praxe, ao lado da reunião dos líderes de Estado, também devem se reunir, em uma série de fóruns setoriais, as lideranças intelectuais e políticas de distintas áreas – economia, educação, saúde, segurança, ciência e tecnologia – incluindo a participação da academia e da sociedade civil. Nesses encontros, teremos a oportunidade de refletir e debater não apenas a posição do Brasil nos Brics, ou a posição dos Brics no cenário global, mas a própria forma como o mundo deve se organizar no século XXI. Que mensagem o Brasil, por meio dos Brics, pode oferecer ao mundo?

Quando observamos o avanço da globalização ao longo do último século, um certo padrão salta aos olhos: o mundo muda sem a globalização mudar. Em cada país, novos líderes nacionais chegam ao poder, políticas distintas se sucedem, brigas ocorrem aqui e ali, ideias e interesses se sucedem entre gerações. No agregado, contudo, quando olhamos o planeta, tudo continua mais ou menos igual: as mesmas regras de organização internacional – na segurança, no comércio, nas finanças – os mesmos países líderes, os mesmos países liderados.

Até que, quando menos se espera, alguma crise inesperada e de grande porte chacoalha o planeta. Uma guerra mundial, uma crise financeira de altas proporções, uma luta ideológica que ameaça partir o mundo ao meio – ou até mesmo acabar com ele. O cataclisma se forma no horizonte. Por um instante, o mundo é forçado a parar e rediscutir as regras do xadrez global. O velho jogo de interesses que dava suporte ao status quo perde a credibilidade. Os padrões que antes pareciam consensuais agora se tornam um problema. Quando há novas ideias disponíveis, a globalização altera seus rumos e modo de funcionamento.

A guerra com mudança é o que explica, por exemplo, a formação das estruturas de segurança, finanças e comércio que parametrizam a globalização. Foi preciso uma grande guerra mundial para o nascimento da Liga das Nações. E foi necessário outra, ainda mais violenta, para, em 1944, se concertar a criação do sistema monetário internacional, conhecido como sistema de Breton Woods, integrado pelo Banco Mundial e o FMI. O Conselho de Segurança da ONU também nasceu no rastro da II Guerra Mundial em 1946. E a Organização para a Cooperação Econômica Europeia, em 1948, ampliada e convertida em Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em 1961.

Com o fim do ciclo de guerras e o arrefecimento da violência em escala global, as discussões sobre o destino do planeta também se diluíram. Ao longo dos últimos 70 anos, basicamente lemos e atuamos no mundo segundo o velho padrão. Ao mesmo tempo que a desigualdade e a miséria avançam como vírus em todo o planeta, ameaças de tragédia ambiental se multipliquem sem que o mundo construa qualquer consenso, o avanço tecnológico cada vez mais afirma a vontade das máquinas e seus controladores sobre os interesses da humanidade, o fluxo do dinheiro fácil em mercados especulativos mina a autoridade da política em todo o mundo e arruína economias industriais.

Qual o significado do Brics para esse cenário?

Os Brics são a primeira e única organização “global” construída desde o fim da II Guerra Mundial. Desde o seu nascimento, o bloco cria um suave contraponto à ordem global vigente, criada à imagem e semelhança dos vencedores nas grandes guerras. Primeiro porque os Brics nascem a partir da visão e interesses de conjunto de países emergentes, que tradicionalmente se consideram subrepresentados nos fóruns globais. Segundo, porque estão comprometidos com a formação da multipolaridade no mundo, superando, portanto, a ordem global comandada pelos países do Atlântico Norte. Terceiro, e talvez o aspecto mais importante, porque os Brics não surgem como resultado da guerra, muito menos estão à sua espera para avançar. São na verdade, uma substituição a ela – a possibilidade real de conciliar mudança com paz.

Em 2018, o território brasileiro hospedará o principal evento dos Brics. O sucesso desse encontro e o aprofundamento da organização e funcionamento desse bloco é ao mesmo tempo a esperança daqueles que defendem a importância de se mudar, no século XXI, a forma de globalização: para torná-la mais inclusiva, mais plural, mais dinâmica e pacífica.

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