“A China é uma opção estratégica para São Paulo”

Em entrevista à China Hoje, governador do Estado de São Paulo, João Doria, fala sobre a inauguração do escritório de representação do Estado de São Paulo em Xangai em agosto, entre outras coisas

O governador do Estado de São Paulo, João Doria, durante entrevista para Revista China Hoje – Foto: Governo do Estado de São Paulo

O governador do Estado de São Paulo, João Doria Jr., está em meio a uma trajetória fulgurante. Em pouco mais de dois anos saltou da condição de empresário bem-sucedido e relativamente desconhecido fora dos círculos do mercado para o cargo de prefeito da maior cidade brasileira, a capital de São Paulo, conquistado em uma eleição que venceu já no seu primeiro turno, e daí para o governo do estado, em novas eleições que mudaram o panorama político do Brasil.

Sustentado por este alentado cacife eleitoral, João Doria tem se firmado como uma das novas lideranças nacionais de seu partido, o PSDB. Dono de um perfil pragmático e empreendedor, o governador tem prometido mudar a face do estado líder do país com um ambicioso programa de privatizações e modernização da administração. Velho conhecedor e admirador da China, o governador recebeu nosso editor, Alfredo Nastari, para esta entrevista, em meio aos preparativos para a missão comercial que irá inaugurar o escritório de representação do Estado de São Paulo em Xangai, em agosto próximo.

China Hoje –  O senhor recentemente esteve na China, ainda como prefeito. Esta foi a sua primeira visita ao país? Quais foram suas impressões pessoais sobre a China de hoje?

João Doria – Eu já estive na China três vezes, a primeira delas em 1986 e, a cada vez que volto, fico mais bem impressionado com o seu desenvolvimento e crescimento. A China da minha primeira visita é completamente diferente da China de hoje. É impressionante, num período de menos de 40 anos, a transformação radical que o país teve no seu desenvolvimento, na sua inserção global e na sua importância para o mercado econômico mundial.

China Hoje – Algo em especial lhe chamou a atenção?

João Doria – A China impressiona pelo conjunto de valores: trabalho, dedicação, tecnologia, comprometimento… é um país que move a economia asiática e vem se tornando, a passos largos, a principal economia do mundo. É o maior parceiro comercial do Brasil e o maior parceiro comercial também de São Paulo. É um país que cresce em média 7% ao ano, e um exemplo de como trabalho, dedicação e planejamento produzem resultados. Quando estive na China pela primeira vez há quase 40 anos, o PIB chinês era 30% menor do que o PIB do Brasil, éramos uma economia maior que a China. Hoje, 40 anos depois, a vantagem da China em termos econômicos em relação ao Brasil é estrondosa.

China Hoje – Nestes 40 anos Brasil e China construíram uma parceria estratégica da maior relevância para ambos os países. A China é o país que mais investe no Brasil e o nosso maior cliente comercial. Na sua visão, como essa parceria irá se desenvolver sob o novo governo brasileiro?

João Doria – Eu posso responder por São Paulo, dada a circunstância de ser o governador do estado. Para São Paulo, a China é uma opção estratégica, tanto que no próximo dia 9 de agosto abriremos um escritório comercial da Investe São Paulo em Xangai, com o objetivo de incrementar ainda mais as relações bilaterais, de investimentos da China em São Paulo e de exportações de produtos agrícolas e manufaturados de São Paulo para a China, com uma gestão muito focada em ampliar fortemente estas relações econômicas. O papel da China para São Paulo continuará sendo não apenas relevante, mas estratégico.

Em nível federal, muito embora eu não possa responder pelo governo Bolsonaro, acredito, na mesma medida, que a importância estratégica da China como principal parceiro econômico do Brasil será mantida, até pela perspectiva do amplo programa de desestatização do governo federal, que pode aumentar ainda mais o peso da China na relação econômica com o Brasil.

China Hoje – Ainda neste ano será realizada a reunião de cúpula dos Brics no Brasil, com o novo governo federal brasileiro ainda no seu primeiro ano. Como o senhor vê o futuro imediato dos Brics neste cenário?

João Doria ­– O Brics é muito importante e a inserção do Brasil e a manutenção dessa relação deverão ser fortalecidas. Creio que uma posição mais clara deverá ser anunciada pelo Brasil na visita do presidente Bolsonaro à China agora no próximo mês de agosto, juntamente com a nossa missão à China. Creio que o presidente Bolsonaro, através do Ministério das Relações Exteriores, terá a oportunidade de se posicionar com mais clareza em relação a este contexto. Até o momento, o que eu percebo é o governo federal mais próximo dessa decisão de fortalecer as relações comerciais com a China.

China Hoje – Neste momento está em curso uma guerra comercial entre Estados Unidos e China, que tende a afetar a economia mundial como um todo. Na condição de governador do maior estado brasileiro, qual é sua posição a respeito?

João Doria – Penso que a disputa entre EUA e China beneficia o Brasil. Se o Brasil tiver agilidade e boa capacidade de percepção, pode ocupar um espaço no contexto desse conflito sem precisar se posicionar no plano diplomático, mas se apresentando bem no plano econômico. Pode ser, a meu ver, uma grande oportunidade para o Brasil aumentar a sua participação na relação bilateral com a China.

China Hoje – Neste cenário, mais que a guerra comercial, a corrida em torno do domínio da tecnologia 5G de comunicação digital está adquirindo um grande protagonismo, com pesadas suspeitas e pressões da administração Trump à gigante das telecomunicações chinesa, a Huawei. Como o senhor enxerga esta questão? O senhor tem alguma preocupação em relação ao 5G da China ou à Huawei?

João Doria – Não, nenhuma. Não vejo da parte de São Paulo, onde a Huawei tem a sua fábrica, nenhuma restrição. O Brasil tem uma legislação que estabelece o processo regulatório para a implantação de tecnologias e protege também a regulação de mercado como um todo. E nós temos uma legislação federal e uma agência nacional de telecomunicações, a Anatel, que, a meu ver, tem gerenciado isso bem. A Huawei está instalada aqui, ela oferece emprego aos brasileiros, mantém acordos com o setor de varejo, com o setor de desenvolvimento tecnológico em São Paulo e vende seus equipamentos para as quatro grandes operadoras, a Vivo, Oi, Tim e Claro. O 5G é uma tecnologia da Internet das coisas, importante para o Brasil. O mundo hoje é um mundo globalizado e a Huawei tem essa tecnologia. Ela não terá exclusividade no Brasil, que é um mercado aberto. Os que apresentarem melhores condições tecnológicas e preços mais convidativos terão mais sucesso do que outros. A Huawei participa deste mercado bilionário com a sua capacidade competitiva em produto/tecnologia/preço e, dentro deste prisma, nós não vemos nenhuma restrição para que ela atue gerando empregos, pagando impostos, trazendo tecnologia para o Brasil.

China Hoje – Como o senhor disse anteriormente, São Paulo irá abrir seu escritório de representação em Xangai. Quais são as suas expectativas, como governador, ao abrir esta representação na China?

João Doria – Incrementar de maneira mais incisiva os negócios bilaterais entre a China e São Paulo, capitaneados pelo agronegócio. O agro tem participação de mais de 22% da economia de São Paulo. O agro de São Paulo tem uma expressão muito importante no plano nacional, dado o etanol, açúcar, álcool, em que São Paulo é líder mundial, e nós pretendemos ampliar a participação deste setor no mercado chinês, e o agronegócio, nessa unidade em Xangai, tem uma importância preponderante.

Também pretendemos incrementar a exportação de produtos manufaturados brasileiros, que possam oferecer preços competitivos para estarem no mercado chinês. Setor de serviços também, aí na bilateralidade, no incremento do setor de serviços, capitaneado por tecnologia. A atração de novas indústrias chinesas, começando pela indústria automotiva. A China tem inúmeros fabricantes de automóveis, evoluiu muito na sua capacidade tecnológica. A indústria chinesa de automóveis se tornou muito competitiva; ela não era no início, hoje ela é, em qualidade, design, motorização, segurança, tecnologia e preço.

Ainda no tema do agro, queremos estimular as indústrias chinesas a fazer o que fizeram as indústrias japonesas ao investir na tecnologia do híbrido, ou seja, para que os seus veículos possam funcionar com combustível fóssil, com eletricidade e com o etanol, ou seja, o “híbrido flex”, como já fazem os japoneses da Toyota. Nós estamos apostando que esse é um caminho possível e o Brasil detém a melhor tecnologia mundial para o chamado “híbrido flex”, que pode ser um caminho para a indústria chinesa. Nós já temos uma grande indústria aqui, que é a Cherry, e a nossa expectativa para os próximos 12 meses é trazer mais uma indústria automobilística chinesa para São Paulo. E isso será capitaneado pelo escritório de São Paulo na China, que será dirigido pelo José Mário Moccia Antunes, que já foi diretor da Apex em Xangai, com a consultoria do ex-embaixador do Brasil em Pequim, Marcos Caramuru, um dos mais profundos e respeitados conhecedores da economia chinesa e da diplomacia sino-brasileira. Então, estamos fazendo tudo com bastante cuidado e muito profissionalismo. Será marcante.

Finalmente, um terceiro e último aspecto:  o escritório será um grande agente motivador para o investimento de bancos e investidores chineses nos setores de desestatização do governo de São Paulo. Rodovias, ferrovias, hidrovias, aeroportos e o porto de São Sebastião, que serão privatizados ao longo da nossa gestão nos próximos três anos e meio, são projetos em que os chineses certamente terão grande interesse em investir.

China Hoje – O senhor anunciou recentemente um projeto bastante audacioso, a despoluição do rio Pinheiros, até o final do seu mandato, uma promessa nunca cumprida e um grande sonho dos paulistanos. O senhor espera contar com tecnologia e capital chineses para isso?

João Doria – Poderemos contar. Nós vamos ter um programa também de concessão através de PPP (parceria público-privada) para o rio Pinheiros e o rio Tietê. O Pinheiros é mais rápido, menos difícil e menos custoso. O Tietê é mais longo, mais caro e demanda mais tecnologia e mais investimento. Mas nós vamos atuar nos dois rios. O Pinheiros será prioridade, e simultaneamente o Tietê, que é tão urgente quanto o Pinheiros, mas, repito, leva mais tempo, porque nós temos todo o processamento da rede de saneamento de Guarulhos e de Mogi das Cruzes, que lamentavelmente não fizeram os programas de saneamento que deveriam ter feito no passado e são grandes contribuintes para a poluição do rio Tietê.  Mas seus processos de saneamento e regularização já estão em andamento através da Sabesp, que assumiu o tratamento em lugar de empresas municipais, com qualidade técnica de engenharia para fazer o que é necessário.

O rio Pinheiros será a primeira experiência e poderemos, sim, ter participação chinesa, não só do ponto de vista de capital, como também de tecnologia.

China Hoje – Já há alguma negociação em aberto?

João Doria – Não, nós vamos publicar o edital neste segundo semestre. Há apenas perspectivas de bons entendimentos, ou seja, os chineses serão players neste processo de concessão, a meu ver, ao lado de sul-coreanos, japoneses e europeus, e a China vai disputar também este segmento, com grande interesse.

China Hoje –  A representação comercial em Xangai será oficialmente aberta com uma missão comercial para a China agora em agosto. O senhor poderia dar mais detalhes desta viagem?

João Doria – Reunimos 30 empresários selecionados pela Investe São Paulo, pelo seu presidente, Wilson Mello.  Nós tínhamos mais empresas interessadas, mas este é um número limite porque senão dificulta um pouco a mobilidade e o entendimento bilateral. Com muita gente não se consegue um bom resultado, então nós limitamos a 30 empresas.

O setor de açúcar, álcool e etanol vai estar representado; o setor de grãos também, ou seja, o agronegócio vai estar bem representado, além dos alimentos processados, os parceiros da cadeia produtiva da indústria automobilística, além de ciência, tecnologia e saúde. Este, aliás, é um mercado também muito interessante. Os chineses avançaram muito na produção de medicamentos nos últimos 10 anos, deixando de ser um país apenas importador para se tornar também produtor de medicamentos, então essa é uma área que também vai fazer parte desse grupo dos 30. É uma viagem de 8 dias, de que vai de 2 a 10 de agosto, muito intensa, mas que será muito produtiva porque pela primeira vez teremos um grupo representativo da nossa diversidade econômica dentro de uma comitiva oficial.

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