A China e a 4ª Revolução Industrial

A China completou 40 anos do início de sua abertura e reforma econômica empreendendo políticas públicas de inovação que visam a tornar o país líder das tecnologias da 4ª Revolução Industrial, como inteligência artificial, robótica, Internet das coisas e o padrão 5G de telecomunicações. Essa estratégia de desenvolvimento aprendeu com os erros de nações que foram bem-sucedidas na transição da agricultura para a indústria, mas falharam em superar o estágio de renda média e não conseguiram criar produtos de alto valor, competitivos no mercado mundial. A experiência chinesa tem lições importantes para o Brasil.

Até a década de 1980 a China era uma economia majoritariamente agrícola. Seus setores mais dinâmicos eram aqueles ligados à exploração do petróleo. Mais de 90% da população vivia na pobreza e a renda per capita estava no mesmo patamar da África subsaariana. As reformas lançadas por Deng Xiaoping incluíram a criação de zonas econômicas especiais, próximas a enclaves estrangeiros no litoral (vizinhança de Hong Kong, Macau e Taiwan) nas quais empresários receberam incentivos fiscais para instalar fábricas.

No início essa produção foi bastante simples, focada em mercadorias de baixo valor agregado e uso intensivo de mão-de-obra, como têxteis e calçados. Mais tarde, eletrônicos rudimentares. Em grande medida esse ainda é o estereótipo que o consumidor brasileiro tem da indústria chinesa, por conta da oferta em áreas de comércio popular, como a 25 de Março em São Paulo ou a Rua da Alfândega no Rio de Janeiro.

Contudo, essa é uma visão obsoleta diante do dinamismo da China contemporânea. O governo e as empresas chinesas fizeram esforços consideráveis em elevar o nível de tecnologia e a qualidade dos produtos fabricados no país, com o objetivo de competir nos mercados internacionais em nichos cada vez mais avançados. Essas iniciativas envolvem formação profissional de qualidade, no exterior ou em universidades chinesas de ponta (Fudan, Hong Kong, Pequim, Renmin, Tsinghua etc) e atração de engenheiros e cientistas chineses que vivem no exterior, por meio de incentivos fiscais (por exemplo, descontos nos impostos, financiamento público para pesquisas). Outra medida importante foi o estabelecimento de espaços urbanos específicos – parques industriais, cidades da ciência, zonas de economia criativa – dedicados a indústrias-chave.

Os resultados são expressivos. Diversas regiões da China se tornaram referência para tecnologias especializadas, devido à concentração geográfica de empresas e profissionais. O Delta do Rio das Pérolas, na província de Guangdong, é o maior polo global de fabricação de eletrodomésticos e eletrônicos. Em cidades como Guangzhou, Zhuhai e Shenzhen, objetos cotidianos como aparelhos de ar-condicionado são renovados com inclusão de inteligência artificial e design inovador. Hangzhou virou um centro de tecnologia de informação. Xangai, uma metrópole vital para vários campos do comércio e dos serviços internacionais.

A China desenvolveu cultura de inovação representada em start-ups, empresas formadas por jovens profissionais de vários países, cujo dinamismo é comparável àquele das firmas do Vale do Silício nos Estados Unidos. Essas companhias desenvolvem pesquisas promissoras em áreas diversas como o uso de drones para entregas comerciais ou táxi aéreos, ou inteligência artificial e imagens 3D para aplicativos de telefone. As gigantes chinesas da área de tecnologia da informação, como Alibaba, Huawei, Tencent, Xiaomi e ZTE, já são referências globais e indicam caminhos para o futuro, como o uso intensivo do celular como meio de pagamento.

O avanço chinês nas fronteiras tecnológicas pode ser visto também na exploração do espaço e dos polos. Em janeiro a China pousou uma sonda no lado distante da Lua – o primeiro país a realizar tal feito, que abre possibilidades de pesquisa científica sobre a formação do satélite e para missões em outros planetas do sistema solar e no cinturão de asteroides. Relevante para o Brasil, que tem desde 1988 um importante programa conjunto com os chineses de construção de satélites (CBERS) que prepara o sexto artefato. Na Antártida, a China ajuda o Brasil a reconstruir sua base naval, destruída por um incêndio em 2012.

O Brasil tem muito a ganhar aprofundando a cooperação com a China e aprendendo com as novas tecnologias desenvolvidas pelo país. São possibilidades de retomar a inovação e aumentar a produtividade que a indústria brasileira precisa para se reerguer e ser competitiva nos mercados internacionais.

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